segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Ferrovia da Fazenda Chimborazo


Trem da CB descarregando sal em um dos terreiros da fazenda Chimborazo. Acervo Arquivo Publico e Histórico de Ribeirão Preto. (Train CB unloading salt at one of the farm yards Chimborazo. Public Archives and Historical Collection in Ribeirão Preto).

(for english, please see below)
Para começarmos a falar da Estrada de Ferro Chimborazo (EFC), como a chamaremos, temos que abordar uma outra história, de uma grande organização rural existente em fins do século XIX e meados do XX, a famosa CARP - Companhia Agrícola do Ribeirão Preto. Não irei me aprofundar nas questões pertinentes à cia, mas é de extrema importância que seja levado em consideração um resumo do que ela foi. As histórias envolvendo a CARP e sua ferrovia infelizmente são cheias de lacunas por ser esta uma empresa privada, não exigindo concessões estaduais ou federais, dificultando a pesquisa.

Breve histórico da CARP.

A CARP foi uma empresa criada em 1888 por um grupo de investidores financeiros do Rio de Janeiro, com chamada de capital de aproximadamente 4000 debêntures no valor médio de 150 réis, sendo autorizado o pagamento de resgate pelo Banco da Republica do Brasil em 28 de fevereiro de 1894.
Em primeiro de abril de 1892, toma posse o novo dono da cia, o sr Conde do Pinhal, que compra a cia dos investidores fluminenses. Seus herdeiros a administram mesmo após sua morte em 1901.

Vista geral da sede da CARP, Fazenda Chimborazo, em 1911. Foto revista Brazil Magazine. (General view of the headquarters of CARP, Farm Chimborazo in 1911. Brazil Magazine Photo magazine).

Possuía uma área de aproximadamente 5 mil alqueires na região compreendida entre os municípios de São Simão e Cravinhos, com 9 fazendas espalhadas por toda a propriedade, sendo elas: Toca; Lagoa; Matão; Santa Fé; Engenho; Monte Belo; Monte Parnazo; Tibiriçá e Chimborazo - esta ultima era a maior de todas e sede administrativa do complexo e contava com os serviços principais de subsistência, escritórios e escola. Havia 2.037.000 de pés de café plantados, fora outras culturas para subsistência e pastagens para animais. Aproximadamente 400 famílias viviam pelas terras da CARP, espalhadas em inúmeras colônias por todas as fazendas, totalizando aproximadamente 3000 colonos.

Em 1923, por força de herança, Pedro Egydio de Queiroz Aranha torna-se dono das ações da CARP e junta-se a seu cunhado, Waldomiro de Almeida Vergueiro. Na data de 05/04/1924, Pedro Egydio, Waldomiro Vergueiro e a empresa “Marques Valle & Cia” firmam contrato de sociedade particular para dispor de todas as ações da CARP, cabendo a Pedro Egydio a nova divisão dos títulos. Porém, de maneira criminosa, protestada por Pedro Egydio, a empresa Marques Valle & Cia vende todas as ações à investidora londrina “The Parents Trust Limited Co”, que repassa os direitos a uma nova empresa, com sede em Londres denominada “Companhia Cafeeira Britânica Brasileira” (CB). Esta empresa administrou a extinta CARP, em meio a diversos processos movidos pelas partes, até o ano de 1938, quando o sr. Paulo Matarazzo adquire todo o complexo.

Neste período, a extinta CARP, extinta CB passa a ser denominada Fazenda Santo André, dividida em quatro seções, a sede, a antiga Fazenda Chimborazo, com o novo nome “Santo André”, e as seções Tibiriçá, Matão e Santo Antônio.  Nos dias de hoje as fazendas ainda pertencem a herdeiros do sr Matarazzo, que já não plantam mais o café, e sim cana de açúcar, com um novos nomes, Fazenda Santa Virgínia e Fazenda Santa Francesca.

A Estrada de Ferro Chimborazo.

Não é totalmente correto chamarmos esta ferrovia como “Estrada de Ferro Chimborazo”, pois Chimborazo era, como citado anteriormente, uma das fazendas do complexo. Porém, sua importância para a CARP (e todas as suas sucessoras) permite que assim a chamemos.
A ferrovia foi criada para uma melhor viabilidade no fluxo de todas as atividades que envolviam a produção do café, que até entrar em funcionamento, era todo feito por meio de tropas de bestas e carroças. A amplitude do local e o grande número de localidades a serem atendidas dentro de todo o complexo da CARP eram um fator determinante para a instalação dos trilhos interligando as propriedades a dois pontos específicos. O ponto de “produção” e o ponto de “escoamento”.


Estação de Tibiriçá, construída pela CARP com autorização da Cia Mogiana. Album da Cia Mogiana de 1910, acervo Museu da Cia Paulista em Jundiaí. (Tibiriçá station, built by the CARP with permission from Cia Mogiana. Album of 1910 Cia Mogiana, collection Museum of Cia Paulista in Jundiaí).

A Cia Mogiana de Estradas de Ferro (CM) cortava a CARP em uma de suas fazendas, vindo de São Simão com direção à Cravinhos. Por pedido da CARP à CM, através de recursos próprios, ela constrói uma estação no quilometro 285,2 de sua linha tronco, com feições totalmente diferentes de qualquer prédio da CM, inaugurada em 15 de julho de 1892, foi denominada Tibiriçá por estar nas terras desta fazenda. Foi, desta maneira, aberto o ponto de escoamento próprio da CARP. Desta estação partiria seu ramal ferroviário, que se desenvolvia por 17 km de extensão em bitola de 60 cm, em uma via única contínua, dividida em três seções, sendo de Tibiriçá à Chimborazo, com 3 kms de extensão, de Chimborazo à Monte Parnazo, com 2,5 kms de extensão, e de Monte Parnazo à Monte Belo, com 11,5 kms de extensão.


Acima e abaixo: Parte da ferrovia entre os cafezais da CARP, no trecho de Chimborazo à Monte Parnazo, próxima a fazenda Chimborazo. Acervo Arquivo Publico e Histórico de Ribeirão Preto. (Above and below: Part of the railway between the coffee plantations of CARP, the stretch of the Monte Parnazo e Chimborazo, near Chimborazo farm. Public Archives and Historical Collection in Ribeirão Preto).

Sugere-se que a construção da ferrovia deu-se entre 1895 e 1897, pois nesses anos, de acordo com os relatórios da CM, o volume de cargas foi muito superior aos tabelados anteriormente e posteriormente, batendo tais volumes com o volume de material necessário à construção da ferrovia e todos os seus suprimentos. Além dos 17 kms de vias, possuiu 4 locomotivas, 30 vagões e 2 carros de passageiros.
Não haviam casas sede (ou “casas grande”) nas demais fazendas do complexo, apenas casas de colonos, tulhas e terreiros. Toda a produção da CARP era processada na fazenda Chimborazo. Por meio da ferrovia, o café colhido e seco em outras localidades era trazido para a casa de maquinas da Chimborazo, onde era beneficiado, e tinha a capacidade de produção de até 1800 arrobas de café por dia, sendo lá estocado. Este café beneficiado, pronto para exportação, era mais uma vez transportado por ferrovia até a estação tibiriçá, onde era baldeada para os trens da CM, seguindo para Santos.

O ramal também servia de transporte aos colonos que moravam em localidades mais distantes dentro do complexo ou para imigrantes que ali desembarcavam, também para o escoamento de itens vindos pela CM para uso das fazendas, com destaque para uma alta circulação de sal, ou mesmo para movimentações de cargas internas, como lenha.


Participantes do Congresso agrícola de Ribeirão Preto em 1914, em visita aos terreiros e complexo da CARP. Revista vida moderna ano IX número 234 13-08-1914 pag 3. (Participants Agricultural Congress of Ribeirão Preto in 1914, to visit the yards and CARP complex. Magazine modern life year number IX 234 13/08/1914 3 pag3 ).

Vagarosamente a cultura do café foi sendo substituída por outras culturas, em menores escalas, que eram facilmente escoadas por meio de caminhões e tratores, que começaram a ser comprados e utilizados nas fazendas do complexo. A ferrovia começa a perder a sua importância, mas ainda estava ativa em 1954.
A CM abre sua retificação ferroviária em 1964, o que fecha a estação de Tibiriçá. Não é possível afirmar que nesta mesma época a ferrovia tenha sido fechada também, mas não haveria sentido sua existência além desta data, levando em consideração a abertura da via anhanguera em 1958 (que passa a menos de 100 metros da estação de Tibiriçá) e a já citada introdução dos equipamentos rodoviários no dia-a-dia da fazenda.
Não se sabe, ao certo, quando a EFC parou de funcionar, mas é aceitável dizer que entre 1954 (ultima data conhecida citada) e 1964 (fechamento da estação de Tibiriçá) a ferrovia sucumbiu. Nada foi encontrado a respeito da destinação do material rodante, nem mesmo dos trilhos, sendo, provavelmente, tudo vendido como sucata. Para o autor, a data mais provável de fechamento da ferrovia é a inauguração da rodovia, em 1958. (Leandro Guidini escreveu em 05/2014).

(Nota do autor: Nas fotografias da ferrovia, vemos claramente um dístico tipado nos vagões "CB". Trata-se da sigla utilizada pela Cia Cafeeira Britânica Brasileira. Logo, acreditamos que todas as fotografias obtidas no Arquivo Publico e Histórico de Ribeirão Preto tenham sido batidas entre 1923 e 1938).     

Referências bibliográficas:
-Botelho, Martinho - Revista Brazil Magazine, ano 5, nº 57.


-Capez, Amim e Daia, João Antonio – Revista Cravinhense, edição especial, 1954.


-Gomes, Francisco – Cravinhos: Histórico Geographico Commercial Agrícola – Typographia Selles, 1922.


-CMEF, Relatório para assembleia dos acionistas da - (1891 a 1900; 1961 a 1964).


- Relatório de RESGATE DO PATRIMONIO ARQUEOLÓGICO CULTURAL MATERIAL: Programa de Gestão do Patrimônio Histórico Arqueológico, Sistema Logístico de Etanol, Trecho I – vol. II; cap. 6 – O Patrimônio Ferroviário, ítem 6.4.3, elaborado por Rafael Prudente Corrêa em coautoria com Leandro Guidini. Junho de 2013 para a Arqueologika.

- DOSP, ano 46, número 45 de 24/02/1935, página 23.


--

The Chimborazo farm railway. 
To start talking of Chimborazo Railroad (EFC), as the call, we have to address another story, a large rural organization existing in the late nineteenth and mid-twentieth century, the famous CARP - Agricultural Company of Ribeirão Preto. I will not delve into the issues relevant to the cia, but it is of utmost importance to be taken into consideration a summary of what she was. The stories involving CARP and its railroad unfortunately are full of gaps as this is a private company and does not require state or federal grants, complicating the search.

Brief history of the CARP .
 The CARP was a company created in 1888 by a group of financial investors in Rio de Janeiro, capital call with about 4000 debentures in the average value of 150 reis , and authorized the payment of ransom by the Bank of the Republic of Brazil on February 28, 1894.
On April 1, 1892, the new owner takes possession of the cia, Mr. Conde do Pinhal, who buys the company from investors. His heirs to administer even after his death in 1901 .
Had an area of ​​approximately 5000 acres in the region between the cities of São Simão and Cravinhos with 9 farms scattered throughout the property , as follows: Toca; Lagoa; Matão; Santa Fé; Engenho; Monte Belo; Monte Parnazo; Tibiriçá e Chimborazo - the latter was the largest of all and administrative headquarters of the complex and had the major services of subsistence, office and school. There were 2.037 million coffee plants planted out other crops for subsistence and forage for animals. Approximately 400 families lived in the lands of CARP, scattered in several colonies by all farms, totaling approximately 3000 settlers.
In 1923, by virtue of inheritance, Pedro de Queiroz Egydio Aranha becomes the owner of shares of CARP and joins his coined, Waldomiro de Almeida Vergueiro. On the date of 05/04/1924, Pedro Egydio, Waldomiro Vergueiro and the company "Marques Valle & Cia" enter into a particular association to dispose of all shares of the CARP, being Pedro Egydio of the new division titles. However, the criminal manner, protested by Pedro Egydio, the company Marques Valle & Co. sells all shares the investor London "The Parents Trust Co Limited", which transfers the rights to a new company, based inLondon called "British Coffee Company Brazilian" (CB). This company managed the defunct CARP, amid many lawsuits filed by the parties, by the year 1938, when Mr. Paulo Matarazzo acquires the entire complex.
In this period, the CARP extinct, extinct CB, gets named Fazenda Santo André, divided into four sections, the seat, the old Farm Chimborazo, with the new name " St. André " , and Tibiriçá, Matão and Santo Antonio sections. Nowadays farms still heirs of Mr. Matarazzo, who no longer plant more coffee, but sugar cane, with new names, Fazenda Santa Virginia and Fazenda Santa Francesca belong.

The Railroad Chimborazo.
 Is not quite right we call this railroad as the "Railroad Chimborazo" because Chimborazo was, as previously mentioned, one of the farms of the complex. However, its importance for CARP (and all its successors) allows so we call it.
The railroad was created for better viability in the flow of all activities involving the production of coffee, which come into operation until it was all done by troops of beasts and wagons. The amplitude of the location and number of locations to be answered within the entire complex of CARP were a determining factor for the installation of rails connecting the properties to two specific points. The point of "production" and the point of "flow".
The Mogiana Railway (CM) cut the CARP on one of his farms, coming from the direction of São Simão with Cravinhos. By request of the CM, CARP through its own resources , it builds a station on 285.2 km of your main line with totally different features of any building CM, inaugurated on July 15, 1892. Tibiriçá was called, to be land in this farm. It was, thus, open the individual point of disposal of CARP. This station break your rail spur, which developed over 17 km long in 60 centimeter gauge, in one continuous route, divided into three sections, with the Tibiriçá the Chimborazo, 3 kms long, the Chimborazo to Monte Parnazo, 2.5 kms long, and the Monte Parnazo to Monte Belo with 11.5 kms long.
It is suggested that the construction of the railway took place between 1895 and 1897 because those years, according to the reports of the CM, the cargo volume was much higher than the tabulated earlier and later, beating such volumes to the volume of material required the construction of the railroad and all its supplies. Beyond 17 kms of roads, owned 4 locomotives, 30 cars and 2 passenger cars.
There were no houses office (or "big houses") in the other farms in the complex, only houses of settlers, bins and yards. All production of CARP was processed on the farm Chimborazo. By railroad, harvested and dried in other places coffee was brought to the home machines of Chimborazo, where it was received, and had the capacity to produce up to 1,800 kilos of coffee per day, being stored there. This processed coffee ready for export, was once again transported by rail to the Tibiriçá station where the trains was transhipped to the CM, heading to Santos.
The station also served as transportation to settlers who lived in more distant locations within the complex or immigrants there, also landed for disposal of items coming by CM for use by farms, highlighted by a high circulation of salt, or even to drives internal loads such as firewood.
Slowly the coffee culture was being replaced by other crops, on smaller scales, which were easily disposed of by trucks and tractors, which began to be bought and used on farms in the complex. The railroad begins to lose its importance, but was still active in 1954.
CM opens its rail grinding in 1964, which closes the season Tibiriçá. Can not say that at this same time the railroad was also closed, but it would be meaningless existence beyond, taking into account the opening of anhanguera road saw in 1958 and the aforementioned introduction of road equipment on a day- to-day farm.

No one knows for sure when the EFC has stopped working, but it is acceptable to say that between 1954 (last known date cited) and 1964 (closing the station Tibiriçá) the railroad succumbed. Nothing has been found regarding the allocation of rolling stock, even the rails, and probably all sold as scrap. For the author, the most likely date of closing of the railroad is the opening of the highway in 1958. (Leandro Guidini wrote on 05/2014). 

(Author's note:. Railroad In the photographs, we clearly see a label typed on wagons "CB" This is the acronym used by the British Coffee Cia Brasileira Therefore, we believe that all photographs taken on the Public Archives and History of Ribeirao Preto have. were struck between 1923 and 1938)