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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cerâmica São Carlense

Uma das locomotivas mais misteriosas deste País é sem duvidas a famosa “Cerâmica São Carlense”. Embora após exaustivas pesquisas em diversos veículos de informações e acervos disponíveis para pesquisa, até então, não consegui descobrir nada sobre a empresa em sim, mas aqui vão alguns dados interessantes da ferrovia para qual esta bela maquininha foi construída, e vou desmistificar algumas coisas ao seu respeito.

Foto de Fábrica da locomotiva fabricada para a Cerâmica São Carlense em 1892. Coleção Leandro Guidini

Encomendada à Baldwin Locomotives Works pela Cia Mechanica & Importadora, deveria trafegar em uma linha estilo “decauville” desmontável, em trilhos de 5 Kg por metro, divididos em seções de 5 metros contendo três dormentes de aço rebitados aos trilhos, e mais três dormentes de madeira para apoio por cada seção. A ferrovia tinha aproximadamente 10 quilômetros de extensão, com curvas de 40 metros de raio e rampa máxima de 3%.

Foi entregue em outubro de 1892 sob o número de série 12972, era do tipo 0-6-2T bitola de 60 cm, com tanque de água trazeiro, sem duvidas, uma das menores locomotivas já construída. Possuía apenas 5 metros de comprimento, rodas motrizes com 66 cm de diâmetro, cilindro (pistão) de 10 cm de diâmetro por 30 cm de curso. Uma locomotiva bem diminuta ideal para o trabalho em uma olaria, tracionando pequenas vagonetas em trilhos desmontáveis, assim como pedia o projeto. Nos registros da Baldwin, apenas esta locomotiva foi construída nestas características.

A locomotiva leva o nome “Francisco Cunha Bueno Junior”. O pouco que pude apurar sobre este cidadão, que além de pertencer a famosa família Cunha Bueno, era um político na cidade nos anos 90 do século XIX, o que nos leva a crer que tivesse investimentos pela região, incluindo a própria empresa cerâmica.

No entanto, esta maquina teve destino incerto. A grande dificuldade no passado em mapear as diversas locomotivas gerou alguns equívocos históricos, o que levou aos pesquisadores pioneiros a colocar esta bela locomotiva na listagem de diversas ferrovias, inclusive ao mesmo tempo! Se analisarmos alguns “rosters” feitos pelos primeiros pesquisadores, cruzaremos os dados e perceberemos que ela foi “encaixada” nas lacunas vazias de diversas ferrovias de bitola de 60 cm, aparecendo como se tivesse trabalhado na Estrada de Ferro Perus Pirapora, Ramal Dumont, Ramal de Santa Rita, etc. Não é possível confirmar a veracidade de todas estas passagens, no entanto, com o advento de nossas novas pesquisas, e o surgimento de novas fontes, como os livros dos fabricantes, acesso a relatórios das companhias ferroviárias, documentações históricas outrora inacessíveis, hoje em dia descartamos inúmeros equívocos completando corretamente as lacunas e desonerando essa pequena locomotiva de ter estado em tantos lugares ao mesmo tempo!

A minha proposta, baseado na fotografia anexa, é que esta maquina tenha terminado sua vida na Usina Monte Alegre em Piracicaba - SP, modificada em suas oficinas pelo gênio da mecânica João Bottene. Segundo as características dos desenhos técnicos (gentilmente enviados a mim pelo amigo Thor Winbergs), pela ficha técnica da Baldwin Locomotives Works e pela fotografia do respeitado Calrheinz Hahmann, da coleção do amigo Eduardo Coelho, podemos notar as semelhanças mecânicas, bem diminutas, da locomotiva na usina (vide ambas fotos do artigo). Como não houve outras maquinas com características mecânicas idênticas, mas existem as modificações, com adição do clássico tanque cela em formato de “foguete”, modificação da cabine, e alguns detalhes mais, é bem plausível afirmar que se trata da mesma maquina.

Possivelmente esta é a mesma locomotiva nas dependências da Usina Monte Alegre em Piracicaba, ja com modificações, em março de 1950. Foto de Carlheinz Hahmann, coleção Eduardo Coelho

As pesquisas continuarão até que seja encontrado algo maior sobre a empresa, em si, e a confirmação da destinação e fim desta tão bela e pequena locomotiva. No entanto, um pouco sobre ela já sabemos, pelo menos!

 

L. Guidini escreveu em 24/08/2020

terça-feira, 17 de julho de 2018

A primeira locomotiva 100% nacional


Acredito que muito ficam pensando a respeito da capacidade tecnológica deste país, e muitas vezes os pensamentos são levados por lendas de que em um período mais distante, onde não havia tecnologia para nada, onde tudo era “artesanal”, não se podia ter vanguarda e autossuficiência. Tais pensamentos sempre nos levam a crer que tudo que era importado era melhor, e éramos escravos de uma tecnologia que não estava em nossas mãos. Estão enganados!
Pesquisar sobre tecnologia nacional me fascina, e a muito tempo venho juntando muitas informações sobre várias destas joias tecnológicas brasileiras (aqui representadas pelas locomotivas), e neste caminho sempre esbarramos com João Bottene, o “gênio da mecânica”. A seguir, um breve histórico da primeira locomotiva construída com 100% de peças nacionais, todas fabricadas em Piracicaba, interior de São Paulo.
A demanda na produção dos derivados da cana-de-açúcar crescia em um São Paulo que estava rapidamente se industrializando e aumentando sua população.  Bottene, nesta época, trabalhava para os Morganti, donos da Usina Monte Alegre (UMA), em Piracicaba, e da Usina Tamoio, em São Carlos. Era necessário a implementação no parque de tração destas usinas, afim de atender tal demanda. Deste intento, em janeiro de 1938 é inaugurada a nova locomotiva número 1 da UMA (a 1 original era uma 0-4-2 O&K, número de série 725, de 1900), sob projeto e supervisão de Bottene nas oficinas da UMA em Piracicaba, batizada de "Fulvio Morganti".

(acima, diversas fotos da construção da locomotiva nas oficinas da UMA, com seu criados ao seu lado)


Bottene, que foi auxiliado por Renato Henrique Benatti e Ambrozio Aronson. A locomotiva é do tipo 2-6-2ST, toda construída com solda elétrica nas emendas das chapas, incluindo sua caldeira, fabricada em chapas de 1/2” de espessura, feito notável em um momento da tecnologia em que os rebites à quente dominavam. Possui um design aerodinâmico, assinatura particular de Bottene para todos os seus projetos de construção e modificação. Suas rodas de 29” de diâmetro, assim como os cilindros de vapor e todas as peças fundidas foram moldadas e fundidas na própria UMA, e carregam em si a marca padrão do símbolo da empresa. Originalmente possuía chaminé reta, que fora trocada por "balão". 

A locomotiva 1 da UMA terminou sua vida na Estrada de Ferro Perus Pirapora, sob o número 18,sofrendo apenas uma modificação, de encurtamento do seu chassis sob a parte do reservatório de lenha, atrás da cabine, mas curiosamente nunca alteraram seu combustível (a EFPP queimava óleo nas suas fornalhas), mantendo-se a lenha. Passou sua vida em manobras principalmente em Cajamar, juntamente da locomotiva 17. Nos períodos finais do funcionamento comercial da EFPP, chegou, devido a escassez e alto preço do óleo, a tracionar trens de carreira, em tração dupla com a 17, mas foi uma operação que durou muito pouco.
Atualmente, esta sobre salvaguardo do IFPPC (Instituto de Ferrovias e Preservação do Patrimônio Cultural), e aguarda restauro no pátio do Km5 (corredor). Podemos sentir um grande alívio desta verdadeira joia ainda existir, próximo a nós. (veja neste link um pequeno vídeo de seu salvamento)


(acima, diversas imagens da locomotiva 18 na EFPP, ex 1 UMA) 
A história de Bottene é muito curiosa e longa e, como já citado, merece muito estudo e até mesmo uma biografia. É considerado o gênio da mecânica por notáveis feitos, como a invenção do ciclo a álcool para motores a combustão, aproveitando assim a enorme demanda desde combustível nas industrias da região. Mereceria uma biografia este ilustre e brilhante paulista. Entre tantas outras locomotivas que construiu, é possível visitar outro exemplar, exposto na cidade de Guarulhos napraça IV Centenário.
Fica aqui então, este pequeno histórico desta tão importante locomotiva a vapor, e esta pequena homenagem ao Gênio da Mecânica.

(L. Guidini re-escreveu em 17/07/2018)